# Recibos verdes: separar as despesas pessoais das profissionais

> Trabalhar por conta própria com uma conta bancária só é o cenário mais comum e o mais confuso. Como separar os dois lados sem abrir uma segunda conta, e o que reservar todos os meses.

Source: https://trybica.com/pt/guides/recibos-verdes-expense-tracking/
Updated: 2026-08-22

---

Quem trabalha por conta própria em Portugal vive um problema que os outros não têm: o dinheiro que entra não é todo teu, e a conta bancária não sabe disso.

O ordenado de um trabalhador por conta de outrem chega já limpo. O IRS foi retido, a Segurança Social foi descontada, o subsídio de férias está separado. O que aparece na conta é o que se pode gastar. A recibos verdes não é nada disso: entra o valor bruto, e uma parte substancial dele pertence ao Estado daqui a três meses.

## O primeiro erro é achar que é um problema de disciplina

Não é. É um problema de contabilidade a acontecer numa conta que não tem colunas.

Toda a gente resolve isto da mesma forma errada: olha para o saldo, faz uma estimativa de cabeça, e vai vivendo. Funciona durante uns meses e parte no primeiro trimestre em que o rendimento é irregular — que, a recibos verdes, é quase sempre.

A alternativa habitual, abrir uma segunda conta só para o trabalho, é boa e tem um custo real: mais um banco, mais uma app, e as transferências entre as duas a poluírem os totais das duas. Se ajuda, faz. Mas não é obrigatório, e não é isso que resolve o problema.

O que resolve é conseguires responder a três perguntas em qualquer altura do mês.

## As três perguntas

**Quanto é que faturei este mês, e não quanto é que recebi.** São números diferentes, e a diferença chama-se prazo de pagamento. Um mês com dois clientes a pagar tarde parece um mau mês e não foi.

**Quanto disto não é meu.** A regra de bolso é reservar entre 25% e 35% de tudo o que entra, consoante o escalão e o regime. É uma estimativa, e é infinitamente melhor do que nenhuma. Reserva no dia em que o dinheiro entra, não no fim do mês.

**Quais das minhas despesas são profissionais.** Software, equipamento, formação, deslocações, uma parte das despesas da casa se trabalhas de lá. Estas contam de forma diferente no IRS, e é a categoria que quase toda a gente subestima porque as despesas estão dispersas por doze meses de extrato.

## Como separar os dois lados sem uma segunda conta

Se as tuas transações estão categorizadas, a separação é uma questão de categorias e não de contas. Na prática:

**Cria categorias profissionais explícitas.** Não "software" a meio das despesas pessoais — "software profissional". O nome tem de ser inequívoco daqui a onze meses, quando estiveres a somar. [Categorias que correspondem à tua vida](/guides/spending-categories-that-work/) explica porque é que uma lista curta e específica bate uma lista longa e genérica.

**Faz regras para o que é sempre profissional.** As ferramentas que usas para trabalhar cobram todos os meses, ao mesmo comerciante, pelo mesmo valor. Isso é um caso resolvido de uma vez: uma regra que arrume esse comerciante na categoria profissional trata dele para sempre, incluindo dos meses que ainda não aconteceram. [Regras que fazem o trabalho](/guides/rules-that-do-the-work/) mostra como montá-las.

**Trata os casos mistos com uma decisão só.** O telemóvel que é dos dois lados, a eletricidade num mês em que trabalhaste de casa. Escolhe uma proporção, escreve-a algures, e aplica sempre a mesma. Uma proporção defensável e constante vale mais do que uma exata que muda de mês para mês.

**Marca as transferências.** Se moves dinheiro para uma conta de reserva do imposto, isso não é despesa. É a distorção mais comum em qualquer registo, e a recibos verdes é maior porque reservas todos os meses. [Porque é que as transferências não são despesa](/guides/transfers-are-not-spending/) cobre o assunto.

## O que isto te dá em fevereiro

Duas coisas concretas. A primeira é uma lista das despesas profissionais do ano inteiro, já somada por categoria, em vez de uma tarde a percorrer doze extratos à procura de faturas de software. A segunda é a verificação: sabes o que gastaste, por isso consegues ver o que falta nas faturas pendentes do e-Fatura em vez de trabalhares a partir de uma lista sem contexto. [O calendário do IRS](/guides/irs-calendar/) explica porque é que fevereiro é a única data que não tem segunda oportunidade.

## Uma última coisa sobre o rendimento irregular

O rendimento a recibos verdes não é baixo, é irregular, e são problemas diferentes com soluções diferentes. A solução do rendimento irregular é uma reserva maior do que a de quem tem ordenado — [seis meses em vez de três](/guides/emergency-fund-size/), e a conta faz-se sobre a despesa média, não sobre o melhor mês. O que torna isso possível é saber qual é a despesa média, que é o que tudo o resto neste artigo serve para descobrir.
