As comissões bancárias que pagas sem dar por isso

Comissão de manutenção, anuidade do cartão, comissões de transferência. Onde se escondem no extrato, o que a lei já limita, e quanto vale mesmo mudar.

Por Atualizado a 18 de agosto de 2026 4 min de leitura

Quase ninguém sabe quanto lhe custa o banco por ano. Não é por a informação estar escondida — o preçário é público e obrigatório — mas porque a cobrança nunca chega em forma de fatura.

Chega como 5,50 € em março, 5,50 € em abril, 25 € uma vez em setembro, 1,20 € numa transferência pelo meio. Cada uma é pequena demais para reagires. Somadas, são muitas vezes a maior subscrição da conta — e a única que ninguém nunca cancelou.

As quatro que explicam quase tudo

A comissão de manutenção. Cobrada ao mês ou ao trimestre pelo privilégio de a conta existir. Normalmente a maior linha isolada, e normalmente isenta se cumprires condições que talvez tenhas deixado de cumprir há anos.

A anuidade do cartão. Débito e crédito são cobrados em separado, uma vez por ano, muitas vezes no mês em que abriste a conta e não em janeiro. Um segundo cartão na mesma conta paga outra vez.

As transferências. Uma transferência SEPA normal é barata ou gratuita pelo homebanking; a mesma transferência ao balcão custa vários euros. As transferências imediatas são cobradas à parte das normais.

Tudo o que vem em pacote. Os pacotes de conta juntam seguros, alertas e anuidades numa só linha mensal. Essa linha é fácil de aceitar e difícil de auditar — o objetivo do pacote é precisamente deixares de contar as partes.

O que a lei já limita

Parte do que pagas tem limites que o banco não te vai lembrar.

Serviços mínimos bancários. Qualquer banco é obrigado a oferecer uma conta cuja comissão de manutenção anual não pode ultrapassar 1% do IAS — pouco mais de 5 € por ano, contra comissões de manutenção que facilmente chegam aos 60 € ou mais. Inclui cartão de débito, homebanking, débitos diretos e um número limitado de transferências interbancárias. A contrapartida existe, mas é mais estreita do que a maioria das pessoas imagina.

Transferências MB WAY. Gratuitas até 30 € por transferência, dentro de um teto mensal — há um limite no valor enviado e outro no número de transferências. A partir daí o banco pode cobrar, e a comissão das transferências imediatas está ela própria limitada a uma percentagem do valor. As contas de serviços mínimos têm direito a menos transferências gratuitas.

Ambos os valores acompanham o IAS e as alterações à lei, por isso confirma os números atuais no Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal em vez de confiares num número tirado de um artigo — incluindo este.

Onde ver o que te cobram mesmo

Duas fontes, e respondem a perguntas diferentes.

O preçário é o que o banco diz que cobra. Todas as instituições publicam um, e o Banco de Portugal mantém um comparador de comissões entre todas no Portal do Cliente Bancário. Serve para responder a “quanto custaria isto noutro lado”.

O teu extrato é o que o banco te cobrou de facto, depois das isenções que a tua conta tenha. Serve para responder a “quanto estou a pagar agora” — e é o único dos dois que pode estar errado a teu favor.

O método prático é pegar em doze meses de extratos e tirar todas as linhas em que o banco se cobrou a si próprio: manutenção, anuidades, comissões de transferência, imposto do selo sobre cada uma. O guia sobre ler as linhas do extrato explica como aparecem. Se tens dinheiro em mais do que um banco, faz por banco — o guia de vários bancos explica porque é que os totais só fazem sentido lado a lado.

Anualiza antes de decidires seja o que for

Uma comissão parece insignificante à cobrança e relevante ao ano, que é exatamente a razão pela qual é cobrada ao mês.

5,50 € de manutenção mais um cartão de 25 € dão 91 € por ano. Duas contas, dois cartões e uma transferência ao balcão de vez em quando põem uma casa acima dos 200 € sem que nada de invulgar tenha acontecido. Isso é um custo fixo, e os custos fixos são os que compensa atacar — o guia dos custos fixos defende que uma tarde aqui vale mais do que meses a vigiar as compras do supermercado.

Depois pergunta o que é que a comissão está a comprar. Às vezes a resposta é um balcão que usas, um gestor que atende, ou um crédito à habitação com condições feitas à relação. Isso é uma razão legítima para pagar. Não saber não é.

A condição que ninguém volta a ler

Quase todas as isenções são condicionais: ordenado domiciliado, um mínimo de compras com o cartão, um saldo, um produto associado. Mudas de emprego, mudas de hábitos, cancelas o produto — e a isenção cai sem aviso. O banco não é obrigado a avisar-te, e a comissão simplesmente reaparece.

Vale a pena verificar uma vez por ano, de uma assentada:

  1. Quanto é que o banco me cobrou nos últimos doze meses? Um número, todas as linhas.
  2. De que isenções dependo, e continuo a cumpri-las?
  3. Quanto custaria a mesma utilização noutros dois bancos? O comparador responde em minutos.

As comissões bancárias não são caras porque os valores sejam grandes. São caras porque são recorrentes, automáticas e invisíveis — o que faz delas o dinheiro mais fácil de recuperar em todo o teu orçamento.

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